Após pedir desculpas pelo seu português, o cineasta italiano Roberto Orazi, convidado por Eduardo Machado para participar do primeiro dia do curso “Estratégias de investigação jornalística”, começou a explicar o processo de desenvolvimento do seu documentário que estava sendo exibido na sala Liber da Biblioteca Central da UFPE.
H.O.T – human organ traffic – aborda o tráfico de órgãos nos países em desenvolvimento, sobretudo a venda de rins. A história se inicia em Pernambuco, um dos poucos locais em que houve investigação e julgamento de um crime relacionado ao tráfico ilegal de órgãos. Apesar dos prêmios acumulados pelo filme com pouco mais de uma hora de duração - dentre eles o Enel Cuore de melhor filme Social, no quarto festival internacional de cinema de Roma – a atenção maior dos estudantes presentes estava no fato de que as estratégias de investigação do cineasta muito se assemelharam com as usadas no jornalismo. Contudo, ele fez questão de frisar que sua abordagem é diferente da jornalística, prefere perguntar “Quem é você?” a “Que história você tem pra me contar?” O jornalista procura um personagem, Orazi quer um herói. Vestindo calça jeans e camisa social, acompanhados por um par de sapatos all-star, o convidado explicou que a idéia foi sugerida pelo produtor do filme, Riccardo Neri, e que com ela viu a oportunidade de expandir seu campo de atuação, uma vez que seus dois documentários anteriores tinham se limitado à Itália.
Foi possível perceber a seriedade com que o cineasta trata seus filmes ao observar sua constante preocupação em responder as perguntas de maneira clara, bem como o respeito às suas personagens, evidenciado no momento em que quase diz o nome do personagem principal de H.O.T – um Nepalense de 19 anos – mas, impede a frase, a fim de preservar sua identidade. Durante seu discurso, Ficou claro que Orazi não é um observador alheio ao que grava. Ele comentou a contradição que é a venda de um rim pela maioria dos “doadores” em países como o Nepal. “Eles precisam de força [para trabalhar], mas acabam vendendo essa força e morrendo 10 anos depois porque não têm ajuda da saúde pública”. Tais palavras transmitem seu senso de preocupação e, por conseqüência, a necessidade de denúncia. “No Nepal, um rim vale 800 reais”, continua. Mesmo com o sotaque forte e a eventual necessidade de tradução para algumas palavras, parece que, ao invés de fonte de desculpas, o português de Orazi deve ser visto como motivo de agradecimento.
Por João Vitor Cavalcanti.
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